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# A incrível geração de gestores dos tempos pós-modernos
- URL: https://revistamanutencao.com.br/colunas/opiniao/radio-peao/a-incrivel-geracao-de-gestores-dos-tempos-pos-modernos/
- Published: 2017-12-26T12:04:36.000Z
- Updated: 2026-11-01T18:33:52.000Z
- Description: A manutenção é um mal necessário, só dá despesa e dor de cabeça.
- Author: Fauzi Mendonça
- Tags: Rádio peão, Colunas, Opinião, Manutenção, Gestão, Crônica, Editorial, Crônica-ensaio, #import-joomla, #source-wayback, #Import 2026-11-01 14:12

> *A manutenção é um mal necessário, só dá despesa e dor de cabeça.*  
>  
> **Nelson Alfredo**

Foi o que disse em tom de *desdém*, o então gestor de produção conhecido como Nelson Alfredo, naquele dia que provavelmente foi um dos mais quentes do verão paulista, do ano de dois mil e dezessete, lembro que o termômetro digital improvisado, que ficava pendurado sobre um calendário quase erótico, na parede da oficina, registrou quarenta e dois graus célsius, enquanto aquele homem *insolente* e *indolente*, estava sentado confortavelmente em uma poltrona inclinável, com amortecedor e revestida em couro legítimo, de uma sala equivalente a uma suíte de hotel cinco estrelas, climatizada por um moderno sistema de *HVAC - Heating, Ventilation, and Air Conditioning*, de onde ele não saia nem mesmo para fazer as necessidades mais básicas, pois havia no local um sanitário revestido com porcelanato, energia elétrica, telefonia, rede, internet, geladeira, máquina com água, suco, café, chá, refrigerante, salgados e doces, além de uma equipe de profissionais extremamente qualificados, responsável por manter todas aquelas facilidades e comodidades funcionando plenamente, através da manutenção que ele acabara de criticar.

Enquanto isso, na oficina de manutenção, que ficava alojada em um porão sem janela, pouco arejado, ou seja, num *espaço confinado*, que não tinha ventilador, exaustor, ar condicionado e não era atendida pelo sistema de HVAC, sob o cheiro insuportável de óleo, graxa, mofo e urina de rato, a rapaziada se reuniu durante o expediente, com o objetivo de organizar uma *vaquinha* para comprar uma cafeteira e deixá-la na oficina em local onde todos pudessem fazer e beber um cafezinho fresco durante o expediente, para enganar a fome, o sono e a indisposição, que geralmente surgiam entre a execução de uma ordem de serviço e outra.

Um deles, o membro da *CIPA*, até debochou daquela situação e disse:

> *Isso não vai dá certo aqui não, ordem de serviço nessa empresa é que nem capim lá no Rio Grande do Sul, não vai sobrá tempo de fazê nem de tomá café aqui não, e se o chefe ficá sabeno, ele vai dizê que nóis tamo fazeno corpo mole.*  
>  
> **Peruca**

Com esse comentário, ele demonstrou através do conhecimento *empírico*, que havia ali um sintoma de equipe mal dimensionada, uma vez que o número de ordens de serviços estava muito além da capacidade de atendimento daquela equipe de profissionais, diagnóstico este que poderia e deveria ter sido feito através do conhecimento *metodológico*, ou seja, de um indicador chamado *backlog*, que não existia naquela gestão, tampouco nas anteriores.

Mas antes mesmo de terminar o comentário, Peruca foi interrompido por um colega, o membro da brigada de incêndio, que respondeu:

> *Relaxa companheiro, se eles não permitem que a copeira traga uma garrafa de café pra gente aqui na oficina, faremos o nosso próprio café, vamos deixar a cafeteira escondida e trancada dentro do armário, na usinagem, e se alguém descobrir e reclamar, eu assumo o B.O.*   
>  
> **Luizão**

Registrei aquela situação do cotidiano da oficina de manutenção, como um filme em alta definição, para eternizar com *riqueza* de detalhes, o *abismo* que havia entre os trabalhadores e os gestores, pois eu não conseguia me conformar, que em pleno ano de dois mil e dezessete, estávamos sendo impedidos de beber um simples cafezinho durante o expediente de trabalho, e que apesar do medo, pretendíamos fazer isso escondido, como se estivéssemos à desobedecer alguém ou à *subverter* alguma regra ou ordem pré-estabelecida, quando na realidade estávamos apenas tentando garantir as condições mínimas necessárias para a nossa subsistência, enquanto força de trabalho *braçal*.

Aquela situação me fez lembrar de um aula de história do ensino médio, em que a professora, chamada de tia cotinha, explicou com riqueza de detalhes, que há mais de dois séculos, na Inglaterra, entre a primeira e a segunda Revolução Industrial, os trabalhadores que eram submetidos ao trabalho *análogo* à escravidão, recebiam durante o expediente, doses *cavalares* de café importado do Brasil colônia, cujo consumo era incentivado pelos gestores e proprietários, pois o café servia para enganar a fome e o sono além de ser um energético eficaz, o que consequentemente garantia alta *produtividade* da mão-de-obra.

Era como se tivéssemos regressado ao ano de mil setecentos e sessenta na Inglaterra, ou seja, para o início da primeira revolução industrial, afinal, aquele gestor conseguiu ser pior do que os *mercenários* da idade média industrial.

Frederick Taylor certamente ficaria chateado, pois, ele jamais pensou na hipótese de ver o seu modo de produção, o Taylorismo, ser reinventado numa versão ainda mais desumana, em plena *vigência* do *modo de produção* da Toyota, ou seja, durante a terceira revolução industrial, na iminência da quarta revolução industrial.

Desculpe-me pelas *digressões* dos últimos três parágrafos, mas elas foram necessárias, pois, agregam as evidências necessárias para prosseguir do ponto em que aquele grupo de trabalhadores, reunidos na oficina, foi surpreendido pelo toque de praticamente todos os telefones inteligentes que soaram alertas simultaneamente, pois eles receberam naquele instante, uma nova mensagem na Rádio Peão, que era o grupo da rapaziada no *whats app*, e foi através deste alerta que eles ficaram sabendo da frase injusta, antes mesmo da conversa entre o gestor e o zelador terminar no elevador moderno e embelezado, que levou o infeliz até o estacionamento do subsolo, onde ele embarcou em um *SUV Sport Utility Vehicle* às quatorze horas, em plena sexta-feira, com destino ao litoral, onde passou o final de semana com a família, na casa de veraneio.

Durante o sábado e o domingo, a linha de produção funcionou *a todo vapor*, somente porque os profissionais da manutenção, não deixaram as máquinas parar, tendo eles inclusive deliberado sobre assuntos de responsabilidade do gestor, que estava surfando na praia, afinal eles decidiram em assembleia, que manteriam tudo funcionando perfeitamente, e que o dia do “*susto necessário*”, seria na segunda-feira, para garantir que o gestor estivesse presente.

Um dos ajudantes de manutenção, justamente o Peruca, ao chegar para trabalhar na segunda-feira às seis horas da manhã, encontrou um rato morto em estado de decomposição, sob o armário da oficina e recolheu imediatamente o animal com uma luva de raspa, contudo, enquanto ele pensava sobre onde descartar aquele pedaço de carne podre, teve uma ideia e consultou a rádio peão, sendo que a maioria o autorizou a executá-la, então ele correu, pegou uma chave de fenda, dirigiu-se até a laje, abriu uma tampa de inspeção e descartou o peludinho ali mesmo, nos dutos de ventilação do sistema de HVAC.

Algumas horas depois, às dez horas e cinco minutos, o gestor chegou atrasado e foi direto para uma sala, onde tinha uma reunião marcada com os membros do conselho administrativo e diretores, contudo ao chegar próximo da sala de reunião, notou que os convidados, estavam todos no corredor, enquanto o presidente reclamava de um mal cheiro insuportável, que os impedia de utilizar todas as salas climatizadas pelo sistema de HVAC, que era automático e não podia ser desligado ou desarmado antes do horário programado. 

Desesperado o gestor dirigiu-se até a oficina de manutenção e não encontrou ninguém por lá, pois quase todas as máquinas apresentaram falhas, após um final de semana extremamente produtivo, sendo que todos os mantenedores estavam devidamente ocupados, atendendo ordens de serviços, então ele andou apressadamente pela linha de produção, atrás de um mecânico, quando ao passar do lado de uma máquina, que estava em manutenção, levou uma *rajada* de óleo hidráulico, que sujou completamente a roupa branca que ele usava, provavelmente lavada e passada em uma lavanderia, para deixá-lo *engomadinho* para a reunião que foi cancelada pelo presidente, que por sua vez demonstrou-se extremamente insatisfeito com o ocorrido, e declarou entre os diretores e membros do conselho administrativo, que a empresa parecia estar fora de controle e que teria que rever algumas coisas e tomar decisões para garantir a saúde do negócio.

O desespero do gestor era tão grande, que ele continuou a epopeia pela linha de produção, até encontrar o mecânico, que estava pendurado na *injetora* de alumínio, e que o atendeu lá de cima mesmo, respondendo sem olhar para baixo:

> *Não posso fazer nada para ajudá-lo, pois não sou especialista em controle de pragas, minha prioridade aqui é liberar as máquinas que estão paradas para a produção, pois eu fui contratado para isso, e o nome da manutenção está muito malvisto por ai, andam dizendo que ela só dá despesa e dor de cabeça.*  
>  
> **Ivan** 

Pela Rádio Peão, tudo foi registrado em tempo real, com texto, imagens, vídeos e áudio, para delírio dos membros do grupo, foram tantas mensagens que até causou o travamento do meu smart phone que era de um modelo mais simples.

Após algumas semanas, os indicadores de desempenho da manutenção (*Disponibilidade*, *MTBF*, *MTTR*, *MTTF* e o *Backlog*) começaram a apresentar os efeitos colaterais, daquela frase infeliz, pronunciada pelo gestor na presença do zelador, que gerou toda aquela tensão, e logo o planejamento orçamentário da manutenção acabou estourando, o que causou desvios nas metas e um impacto negativo significativo no planejamento estratégico anual de toda a empresa, devido ao aumento exponencial das despesas com peças, serviços e materiais de consumo.

Após alguns meses o gestor foi demitido, porque a produção estava seriamente comprometida, uma vez que as máquinas não paravam de quebrar, apesar das despesas com manutenção que haviam triplicado no último trimestre, quando sob nova jestão \[sic\] e sob o comando de um novo jestor \[sic\], ainda tímido e cauteloso, os profissionais da oficina de manutenção, reestabeleceram o clima de paz e sossego na empresa, e tudo voltou ao ponto de equilíbrio.

Até que num belo dia, o novo gestor, resolveu reclamar durante um *DSS*, de uma cafeteira que ele viu na oficina de manutenção, dizendo que ela não deveria estar lá, devido a possibilidade de que ela poderia atrair ratos para o ambiente, mas o que ele não imaginava é que a rapaziada já estava acostumada com os peludinhos, eles até alimentavam e engordavam os animais, que tinham nome e apelido, como por exemplo o filhote mais novo da ninhada, conhecido como Nelson Alfredo, que apesar de mimado era responsável por fazer a jestão \[sic\] residual das migalhas que caiam no chão da oficina.

Enfim, eu quase esqueci de descrever os pormenores de como e por que improvisei aquele termômetro que deixei pendurado na parede da oficina, pois, ele era bem simples, construído com um sensor conectado a um microcontrolador integrado a um display através dos fios que removi de um cabo telefônico que seria descartado, sendo que, a principal função dele era medir a temperatura interna dos painéis dos centros de usinagem e injetoras, que possuíam componentes de alta tecnologia, mas que operavam em condições precárias e em ambiente impróprio, ou seja, ele servia para evitar a queima por sobreaquecimento de CNCs, módulos e placas eletrônicas, cujo custo era tão elevado que e em alguns casos pagava os salários e os encargos de todos os funcionários da oficina de manutenção.

Componentes utilizados no desenvolvimento do termômetro:

1- Programa escrito em linguagem C++.  
1- Gravador de microcontrolador PIC universal;  
1- Microcontrolador PIC16F877;  
1- Sensor de temperatura LM35;  
1- Display LCD Alfanumérico 16×2;  
1- Pedaço de cabo RJ11;  
1- Conector para bateria de 9V;  
1- Bateria de 9V;  
1- Ferro de solda de 70W;  
1- Pedaço de estanho;  
1- Pistola de cola quente;  
1- Pedaço de cola quente;  
1- Pedaço de papelão.  
  
Mas confesso que esses detalhes são irrelevantes, afinal não adiantou nada saber o que e como utilizar todos esses recursos e fazer milagres na oficina, para manter as máquinas funcionando como se fosse o MacGyver, enquanto aquele pessoal que se classificava como white, yellow, green, black e masters belts, que tinha poder, autonomia e recursos para deliberar, insistia em fazer jestão \[sic\], sem administrar os conflitos de interesses, e sem se preocupar em reduzir o abismo que existia entre eles e o chão de fábrica, pois, eles *pagaram para ver* o neoludismo surgir, e viram da pior maneira possível.

Enfim, eu que não era neoludista, tampouco pretendia ficar para apagar incêndio, tratei logo de desenvolver um novo projeto, um detector de incêndio improvisado, para o Luizão brigadista, afinal a rapaziada da produção que pediu para participar do grupo rádio peão, compartilhou entre os integrantes diversos EBOOK's, que considero altamente subversivos como o Manifesto Unabomber, Manifesto Comunista e O Direito à Preguiça, o que estimulou o surgimento de um clima aprofundado de luta de classes, que constatei no grupo ao observar o compartilhamento de ideias, áudios e vídeos, além de memes contendo perguntas irônicas como por exemplo:

> *Já deram férias para os bombeiros?*  
>  
> **Peãozada**

**Texto:** Primeira edição [publicada](https://revistamanutencao.com.br/colunas/opiniao/radio-peao/a-incrivel-geracao-de-gestores-dos-tempos-pos-modernos/) na [Revista Manutenção](https://revistamanutencao.com.br/) sob licença Creative Commons 

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