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# Podemos perder algumas gerações de cientistas e engenheiros
- URL: https://revistamanutencao.com.br/noticias/negocios/podemos-perder-algumas-geracoes-de-cientistas-e-engenheiros/
- Published: 2025-09-22T14:27:56.000Z
- Updated: 2026-11-01T19:44:56.000Z
- Description: “Podemos perder algumas gerações de cientistas e engenheiros” Pesquisador norte-americano Kei Koizumi esteve no Brasil para participar de um seminário sobre a ciência.
- Author: Fauzi Mendonça
- Tags: Negócios, Notícias, #import-joomla, #source-wayback, #Import 2026-11-01 14:12, #ai-image

“Podemos perder algumas gerações de cientistas e engenheiros” Pesquisador norte-americano Kei Koizumi esteve no Brasil para participar de um seminário sobre a ciência da ciência Sarah Schmidt, da Revista Pesquisa FAPESP.

Koizumi na sede da FAPESP, em São Paulo: políticas regionais de inovação são importantes para o desenvolvimento econômico do país.

Léo Ramos Chaves/Revista Pesquisa FAPESP

O cientista social norte-americano Kei Koizumi participa da construção da política científica e tecnológica dos Estados Unidos há anos. Durante os governos de Barack Obama (2009-2017) e Joe Biden (2021-2025), ocupou cargos de liderança no Escritório de Políticas Científicas e Tecnológicas (OSTP) da Casa Branca e foi assessor dos dois presidentes nessa área. Participou ativamente da implementação da [Chips and Science Act,](https://revistapesquisa.fapesp.br/estados-unidos-preparam-investimento-bilionario-em-sua-industria-de-semicondutores/?ref=revistamanutencao.com.br) lei aprovada em agosto de 2022 com o objetivo de fortalecer a produção de semicondutores e aumentar o financiamento federal em ciência e tecnologia com investimento previsto de cerca de US$ 280 bilhões ([*ver* Pesquisa FAPESP *nº 320*](https://revistapesquisa.fapesp.br/estados-unidos-preparam-investimento-bilionario-em-sua-industria-de-semicondutores/?ref=revistamanutencao.com.br)).

Nos dias 10 e 11 de julho, Koizumi esteve na sede da FAPESP, em São Paulo, e na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) para participar do seminário “Pesquisa sobre pesquisa e inovação: Indicadores, métricas e evidências de impactos”. Também conhecido como ciência da ciência, o campo estuda como a prática científica é produzida, financiada e avaliada. O evento foi organizado pelo Laboratório de Estudos sobre Organização da Pesquisa e da Inovação (Lab-Geopi), da Unicamp, em comemoração aos 30 anos de sua criação.

Koizumi fez apresentações sobre sua experiência no OSTP e afirmou que, ao formular políticas públicas, é preciso unir ciência e sociedade com foco em inclusão e diversidade, para que os benefícios gerados pelos estudos científicos possam chegar à população de maneira menos desigual. Na Unicamp, após uma dessas exposições, ele conversou com *Pesquisa FAPESP* sobre algumas ações das quais participou e a situação da comunidade científica nos Estados Unidos diante dos sucessivos cortes no orçamento federal de pesquisa sob a atual gestão de Donald Trump.

**O senhor liderou a primeira equipe dedicada à conexão entre ciência, sociedade e política do Escritório de Políticas Científicas e Tecnológicas do país no governo Biden. Poderia dar algum exemplo de uma ação bem-sucedida?**  
Era um sonho meu combinar minhas três palavras-chave: ciência, sociedade e política em uma unidade. No pouco tempo em que consegui fazer isso – porque essa equipe só existiu no último ano e meio do governo Biden –, penso que que tivemos alguns casos de sucesso. Um deles foi melhorar a participação pública na tomada de decisões de ciência e tecnologia. Tive um membro da equipe envolvido em promover a participação pública na ciência e ele nos ajudou a ter uma política de pesquisa de inteligência artificial mais democrática e orientada para as pessoas. Para isso, reunimos cerca de 700 pessoas, várias delas principalmente de forma virtual, em mesas-redondas e sessões de escuta em todo o país.

**O senhor esteve envolvido na criação da Arpa H, uma agência de fomento que nasceu para acelerar pesquisas inovadoras e tratamentos em saúde. Como a instituição está nesse cenário de cortes federais no orçamento de pesquisa?**   
Embora o orçamento seja menor do que o que originalmente previmos ‒ atualmente está em cerca de US$ 1 bilhão por ano, enquanto esperávamos que agora estivesse nos US$ 4 bilhões ‒, a agência está financiando pesquisas. O desafio é permitir que as agências de financiamento invistam em projetos de longo prazo com resultados também de longo prazo, num sistema político que recompensa o curto prazo. A Arpa H está financiando projetos de pesquisa, mas seus resultados não aparecerão por mais alguns anos. Estou pedindo que todos sejam pacientes.

**A diversidade das fontes de financiamento dos Estados Unidos ‒ como o setor privado e de instituições sem fins lucrativos ‒ preenche a lacuna quando os investimentos federais diminuem, como ocorre agora?**  
Estamos prestes a descobrir. Uma das forças do sistema dos Estados Unidos é ser diverso e descentralizado. Em toda a pesquisa e desenvolvimento do nosso país, o governo federal fornece cerca de 25% do financiamento. Empresas, fundações, governos estaduais e locais, organizações sem fins lucrativos, todos os outros oferecem os 75% restantes. Existe a possibilidade de encontrar fontes alternativas para muitos projetos de pesquisa federais cancelados, mas isso vai dar muito trabalho. Porque as empresas e fundações já estão investindo em suas próprias pesquisas e é difícil pedir que também assumam projetos financiados pelo governo federal. Minha esperança é de que sejamos capazes de desfazer parte dos danos causados pelos cortes federais.

> O desafio é permitir que as agências de fomento invistam em projetos de pesquisa de longo prazo

**No início deste ano, pesquisadores norte-americanos estavam preocupados com o que aconteceria com suas pesquisas. Como a situação está agora?**   
Os pesquisadores continuam preocupados, e devem estar mesmo porque muitos desses subsídios ainda estão cancelados. Alguns financiamentos foram restaurados, e isso é uma boa notícia. Mas o momento ainda é muito incerto. O financiamento de pesquisas pelo governo federal não diminuiu no geral, mas isso ainda pode ocorrer. Para 2025, o financiamento está no mesmo nível dos anos anteriores. A proposta orçamentária para 2026 indica um corte acentuado \[de cerca de US$ 44 bilhões, segundo estimativas de julho da Associação Americana para o Avanço da Ciência, a AAAS\]. Como ainda não foi aprovada pelo Congresso dos Estados Unidos, continua sendo apenas uma proposta. Até agora, muito pouco foi efetivamente cortado dos orçamentos de pesquisa e desenvolvimento. O mais preocupante, especialmente para pesquisadores e estudantes iniciantes, é a incerteza sobre o que acontecerá no futuro. O atual ambiente de financiamento não é bom para tomar decisões importantes, que envolvam a carreira. Minha preocupação é a possibilidade de perdermos algumas gerações de cientistas e engenheiros. Em setembro começaremos a obter dados sobre matrículas universitárias, especialmente de estudantes estrangeiros e de pós-graduação que estão entrando em programas de ciência e engenharia. Então saberemos a magnitude dessas mudanças. O complexo científico e de engenharia norte-americano não será o mesmo após os eventos deste ano.

**O senhor participou dos eventos em São Paulo e Campinas em que foram apresentados estudos realizados no Brasil sobre a ciência da ciência. Algo chamou sua atenção?**  
Estou impressionado com o fato de Lab-Geopi ter 30 anos de atuação. O Brasil tem pensado os problemas de “pesquisa sobre pesquisa” há um longo tempo. Simultaneamente descobrir uma agência vibrante de financiamento à pesquisa em nível estadual, que está interessada em política científica, foi maravilhoso. Estou animado com a possibilidade de aprendermos uns com os outros sobre políticas de ciência e tecnologia. Por exemplo, não conhecia o modelo de financiamento garantido que a FAPESP recebe da receita do governo estadual. Não sei de nenhum estado americano que tenha algo parecido.

**Qual é o papel de agências estaduais na construção de ecossistemas de inovação regional? Como são as experiências semelhantes nos Estados Unidos?**  
Eu acredito que as políticas regionais de inovação são importantes para garantir que o desenvolvimento econômico ocorra em todo o país. O crescimento econômico dos Estados Unidos é desigualmente distribuído. Estados como a Califórnia e Nova York, por exemplo, têm políticas e instituições vibrantes de ciência e tecnologia que são semelhantes à FAPESP nesse sentido. Um foco do meu trabalho foi garantir que outros estados americanos, com menos recursos, tenham também a capacidade de impulsionar a inovação regional. Esse foi meu trabalho em ações como a criação e a aprovação da Chips and Science Act e no estabelecimento de uma nova diretoria na National Science Foundation \[NSF\], a Directorate for Technology, Innovation and Partnerships \[TIP, Diretoria de Tecnologia, Inovação e Parcerias\] para trabalhar a inovação regional. Aprendemos que a inovação é importante o suficiente para a geração de empregos e a economia, e para torná-los acessíveis a pessoas em todo o país. Porque, se ela ocorrer apenas na Costa Leste ou na Costa Oeste dos Estados Unidos, não será sustentável, nem boa para a economia geral do país. Por isso, uma ação importante foi estabelecer, dentro dessa política, essa diretoria na NSF, deixando claro que a diversidade geográfica é um critério importante.

**Em sua palestra, o senhor afirmou que a política científica nos Estados Unidos sempre tentou dar às pessoas o acesso aos resultados de suas pesquisas. Como esse tipo de ação pode proteger a ciência em tempos como este, quando ela está sob ataque?**  
Expandir o acesso público à pesquisa e aos dados científicos é bom por si só. Mas também há um valor importante em fazer com que o público possa fazer uso desses resultados. A motivação original para tornar as publicações de pesquisas financiadas pelo governo imediatamente disponíveis para todos era que muitas famílias de pessoas que sofriam de doenças queriam poder ler, por exemplo, o estudo sobre câncer e a pesquisa sobre doenças cardíacas por si mesmas. E, ao proporcionar esse acesso, milhões de americanos passaram a se envolver de forma muito pessoal com a pesquisa médica. Minha esperança é que ao tornar disponíveis resultados de pesquisas sobre mudanças climáticas, astronomia ou pesquisa médica, teremos mais americanos que apreciem, entendam e possam usar os resultados em suas próprias vidas. Espero que isso ajude a apreciação pública e a confiança na ciência a crescer.

> Há a possibilidade de encontrarmos fontes alternativas para muitos projetos de pesquisa federais cancelados, mas isso vai dar muito trabalho

**O senhor também destacou que a confiança da população na ciência é forte nos Estados Unidos, mas, ao mesmo tempo, nas universidades ela está em declínio.**  
Sim. Os dados indicam que a confiança do público na ciência permanece alta. Mas a maneira como as perguntas são feitas é muito abstrata: “Você confia na ciência?”. As pessoas geralmente respondem que sim. Mas vimos uma erosão em como elas confiam no uso da ciência pelo governo em pandemias, como na Covid-19\. Esses números são baixos e estão diminuindo. E dados de pesquisas relacionadas mostram que a confiança do público nas universidades está decaindo.

**Por quê?**  
Acho que por uma combinação de muitos fatores. Um é a percepção de que as universidades de pesquisa de elite estão fora de alcance do povo americano. Que elas são de esquerda e inacessíveis – há uma crescente preocupação com os preços das mensalidades. E, para o bem ou para o mal, é nas universidades que grande parte de nossa pesquisa financiada pelo governo ocorre. A ciência está diretamente ligada às percepções do público sobre o ensino superior.

**Em sua palestra, o senhor brincou que agora, com o fim da gestão Biden, está desempregado. Quais são seus planos?**  
Ainda não sei. Estou procurando outro emprego. Enquanto isso, tenho aproveitado a oportunidade para participar de conferências como esta, para visitar outras nações e explorar seus sistemas de ciência, tecnologia e inovação. Estou em uma missão para aprender, interagir e conhecer novos colegas.

Uma versão deste texto foi publicada na edição impressa [representada no pdf](https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2025/08/032-033%5Fentrevista-kei-koizumi%5F355.pdf?ref=revistamanutencao.com.br).

Este texto foi originalmente publicado por [Pesquisa FAPESP](https://revistapesquisa.fapesp.br/?ref=revistamanutencao.com.br) de acordo com a [licença Creative Commons CC-BY-NC-ND](https://creativecommons.org/licenses/by-nd/4.0/?ref=revistamanutencao.com.br). Leia o [original aqui](https://revistapesquisa.fapesp.br/podemos-perder-algumas-geracoes-de-cientistas-e-engenheiros/?ref=revistamanutencao.com.br).