Como a manutenção preditiva ajuda a evitar falhas de lubrificação?

Como a manutenção preditiva ajuda a evitar falhas de lubrificação?

Falhas de lubrificação raramente acontecem de forma súbita. Elas se desenvolvem gradualmente, começando com alterações microscópicas no filme lubrificante e evoluindo para desgaste acelerado, aumento de atrito e, por fim, falha funcional do componente.

O problema é que, em muitas plantas industriais, a lubrificação ainda é tratada dentro de modelos tradicionais de manutenção preventiva, baseados em calendário fixo. Lubrifica-se porque “está no plano”, não porque o ativo demonstrou necessidade real.

É nesse ponto que a manutenção preditiva muda completamente a lógica da decisão.

Da manutenção por tempo para a manutenção por condição

A manutenção preventiva tradicional assume que todos os ativos se comportam de forma semelhante ao longo do tempo. Assim, define-se um intervalo fixo de relubrificação com base em recomendações genéricas ou histórico passado.

O desafio é que a necessidade de lubrificação não depende apenas do tempo. Ela é influenciada por:

  • Carga aplicada;

  • Velocidade de rotação;

  • Temperatura ambiente;

  • Contaminação;

  • Regime de operação (intermitente ou contínuo);

  • Qualidade do lubrificante.

Dois rolamentos idênticos, operando em condições aparentemente similares, podem exigir intervalos completamente diferentes. Quando a lubrificação é feita apenas com base em calendário, inevitavelmente surgem dois problemas: sobrelubrificação em alguns ativos e sublubrificação em outros.

A manutenção preditiva substitui a lógica do tempo pela lógica da condição real.

O que significa prever uma falha de lubrificação?

Prever uma falha não significa adivinhar quando o componente vai quebrar. Significa identificar o momento em que a falha potencial surge, ou seja, o ponto em que o processo de deterioração já começou, mas ainda é reversível ou controlável.

No caso da lubrificação, isso ocorre quando:

  • O filme lubrificante se torna instável;

  • Surgem microcontatos entre metais;

  • Aumenta o atrito localizado;

  • Iniciam-se impactos microscópicos entre superfícies.

Nesse estágio, o componente ainda cumpre sua função. A temperatura pode estar normal. A vibração pode não apresentar variação significativa. Visualmente, tudo parece adequado.

É exatamente aqui que a manutenção preditiva gera maior valor.

A curva P-F aplicada à lubrificação

O conceito da curva P-F descreve o intervalo entre a falha potencial (P) e a falha funcional (F). Quanto mais cedo o ponto P é detectado, maior é a janela de planejamento e menor o custo da intervenção.

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Em falhas de lubrificação, o ponto P surge muito antes do aumento significativo de temperatura ou da elevação de vibração em baixa frequência. Isso significa que técnicas tradicionais podem identificar o problema apenas próximo da falha funcional, reduzindo drasticamente o tempo de reação.

Uma estratégia preditiva eficaz busca antecipar essa detecção, ampliando a janela entre P e F.

Técnicas preditivas aplicadas à lubrificação

A manutenção preditiva não é uma única técnica, mas um conjunto de métodos complementares. Para falhas de lubrificação, algumas abordagens são particularmente relevantes.

Análise de vibração

A vibração é amplamente utilizada para monitorar rolamentos e engrenagens. Em estágios intermediários de falha, ela é extremamente eficaz para detectar defeitos geométricos, desalinhamentos e desgaste avançado.

No entanto, em problemas iniciais de lubrificação, a vibração pode apresentar sensibilidade limitada, especialmente quando analisada apenas em níveis globais. 

A análise de espectro e de altas frequências amplia essa capacidade, mas ainda pode detectar o problema após o início do dano superficial.

Análise de óleo

Em sistemas lubrificados a óleo, a análise laboratorial permite identificar contaminação, degradação, viscosidade fora de especificação e presença de partículas metálicas.

Essa técnica é poderosa para acompanhar a saúde do lubrificante e do sistema como um todo. Porém, depende de coleta adequada, periodicidade consistente e tempo de resposta laboratorial. 

Em ativos críticos, o intervalo entre amostras pode ser maior que o desejável para detecção muito precoce.

Ultrassom industrial

Problemas iniciais de lubrificação geram energia em altas frequências associadas a atrito e impactos microscópicos. Essa energia se manifesta antes de ocorrer aquecimento significativo ou vibração estrutural perceptível.

O ultrassom industrial é sensível exatamente a esse tipo de fenômeno. Ele permite identificar aumento de atrito em estágios iniciais e, em aplicações específicas, orientar a relubrificação com base na condição real do componente.

Na prática, isso significa lubrificar quando necessário, e apenas quando necessário.

Benefícios para a confiabilidade

Quando a manutenção preditiva é aplicada à lubrificação, os ganhos aparecem em múltiplos níveis.

Redução de falhas prematuras

Detectar instabilidade do filme lubrificante antes que o desgaste se torne irreversível evita a degradação acelerada das superfícies de contato. Isso aumenta a vida útil dos rolamentos e reduz intervenções corretivas.

Diminuição do consumo excessivo de graxa

Programas baseados apenas em calendário frequentemente resultam em sobrelubrificação. Ao utilizar dados de condição, a aplicação de lubrificante torna-se mais precisa, reduzindo desperdícios e efeitos colaterais como aumento de temperatura e oxidação.

Aumento do MTBF

Com menos falhas relacionadas à lubrificação, o tempo médio entre falhas se torna mais previsível e consistente. Isso melhora indicadores de confiabilidade e reduz variabilidade operacional.

Melhor planejamento

Ao ampliar a janela entre falha potencial e falha funcional, a manutenção deixa de ser reativa. Intervenções podem ser programadas, peças podem ser adquiridas com antecedência e recursos podem ser alocados de forma estratégica.

A mudança cultural necessária

Implementar manutenção preditiva na lubrificação não é apenas uma decisão técnica, mas cultural. Significa abandonar a ideia de que cumprir o plano é suficiente. Cumprir tarefas não garante confiabilidade; garantir condição é o que realmente importa.

Isso exige:

  • Definição clara de criticidade dos ativos;

  • Seleção adequada das técnicas de monitoramento;

  • Treinamento das equipes;

  • Integração entre manutenção, engenharia e gestão de ativos.

Sem essa integração, a tecnologia se torna apenas mais um indicador isolado.

De atividade operacional a estratégia de confiabilidade

Tradicionalmente, a lubrificação foi vista como uma atividade operacional de baixo valor agregado. A manutenção preditiva transforma essa percepção ao integrá-la à estratégia de confiabilidade.

Quando decisões de lubrificação passam a ser baseadas em condição real, o impacto deixa de ser apenas técnico e passa a ser estratégico: menor risco operacional, menor custo de ciclo de vida e maior previsibilidade.

Em um cenário industrial cada vez mais orientado a desempenho e disponibilidade, a pergunta não é mais se a manutenção preditiva deve ser aplicada à lubrificação, mas como estruturá-la de forma eficaz.

Se a predição permite identificar a necessidade real de intervenção, surge então o próximo passo lógico: como estruturar um plano de lubrificação baseado em condição que seja tecnicamente sólida, economicamente viável e operacionalmente aplicável?

Fauzi Mendonça

Engenheiro em Eletrônica

Especializações

Manutenção e Confiabilidade

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Fundador, Diretor Editorial e Colunista da Revista Manutenção, escreve regularmente sobre diversos assuntos relacionados ao cotidiano da Engenharia, Confiabilidade, Gestão de Ativos e Manutenção.

Desenvolvedor Web e Webdesigner, é responsável pelo design, layout, diagramação, identidade visual e logomarca da Revista Manutenção.

Profissional graduado em Engenharia Eletrônica com ênfase em automação e controle industrial, pós graduado em Engenharia de Manutenção, pela Faculdade Anhanguera de Tecnologia (FAT) de São Bernardo e em Engenharia de Confiabilidade, pela Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR).

Profissional atua há mais de vinte (20) anos com Planejamento e Controle de Manutenção (PCM), em empresas de médio e grande porte, nacionais e multinacionais, onde edificou carreira profissional como Técnico, Programador, Planejador, Analista e Coordenador de PCM.


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