Ultrassom industrial na lubrificação: como usar e vantagens

Ultrassom industrial na lubrificação: como usar e vantagens

Durante décadas, a lubrificação foi tratada como atividade rotineira. Aplicar graxa, completar óleo, seguir o cronograma. Quando surgia aquecimento ou ruído audível, o problema já estava instalado.

A evolução da manutenção baseada em condição mudou essa lógica. Hoje, não basta lubrificar. É necessário saber quando, quanto e por quê.

É nesse contexto que o ultrassom industrial se consolida como uma das ferramentas mais eficazes para monitoramento da lubrificação.

O que o ultrassom realmente mede?

Quando o filme lubrificante começa a se tornar instável, ocorrem microcontatos entre superfícies metálicas. Esses contatos geram energia de alta frequência, acima da faixa audível pelo ouvido humano.

Essa energiestagios-de-deteccao-de-defeitosa é emitida na faixa ultrassônica.

Diferentemente da temperatura, que mede calor acumulado, ou da vibração tradicional, que detecta alterações dinâmicas já mais desenvolvidas, o ultrassom capta o atrito microscópico nos estágios iniciais.

 

Ou seja: ele mede o fenômeno antes que o dano seja visível.

Por que o ultrassom é tão sensível à lubrificação?

Em rolamentos operando corretamente no regime elastohidrodinâmico (EHL), as superfícies estão separadas por um filme estável de lubrificante. O atrito é mínimo e o nível ultrassônico permanece baixo e estável.

Quando ocorre:

  • Sublubrificação

  • Sobrelubrificação

  • Contaminação

  • Degradação do óleo base

  • Perda de viscosidade

O filme se torna irregular. Microimpactos e fricções localizadas surgem.

Esses eventos produzem emissões acústicas de alta frequência, detectáveis imediatamente por sensores ultrassônicos.

Isso amplia significativamente a janela entre falha potencial e falha funcional.

Como usar o ultrassom na prática

O ultrassom pode ser aplicado de duas formas principais:

1 - Monitoramento portátil (rota preditiva)

Com sensores portáteis, o técnico realiza medições periódicas em pontos definidos.

O procedimento inclui:

  • Definir pontos de medição padronizados;

  • Registrar valor em decibéis (dB);

  • Criar linha de base (baseline);

  • Monitorar tendência ao longo do tempo.

Aumento progressivo do nível ultrassônico indica deterioração da condição de lubrificação.

Essa abordagem é especialmente útil para:

  • Motores elétricos;

  • Mancais;

  • Redutores;

  • Bombas;

  • Ventiladores.

2 - Monitoramento online contínuo

Em ativos críticos, sensores ultrassônicos podem ser instalados permanentemente.

Nesse modelo:

  • O monitoramento é contínuo;

  • Alarmes são configurados por tendência;

  • Dados podem ser integrados ao sistema de manutenção;

  • A tomada de decisão é automatizada.

Essa abordagem reduz a dependência de rota de inspeção e aumenta a confiabilidade em ativos de alto risco operacional.

Ultrassom aplicado à relubrificação guiada

Uma das aplicações mais poderosas do ultrassom é a lubrificação guiada por condição.

Em vez de aplicar uma quantidade pré-definida de graxa, o técnico:

  1. Conecta o sensor ao ponto do rolamento;

  2. Inicia a aplicação gradual de graxa;

  3. Observa o comportamento do sinal ultrassônico;

  4. Interrompe a aplicação quando o nível atinge o ponto ideal.

O resultado:

  • Eliminação da sobrelubrificação;

  • Redução de consumo de graxa;

  • Estabilização do regime de operação; e

  •  Maior vida útil do rolamento.

Esse método transforma a lubrificação de tentativa e erro em procedimento técnico controlado.

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O ultrassom não substitui as outras técnicas. Ele complementa, ampliando a capacidade de detecção precoce.

Benefícios estratégicos para a manutenção

A adoção do ultrassom na lubrificação gera impactos diretos:

Aumento do MTBF

Problemas são corrigidos antes que o desgaste se torne irreversível.

 Redução de manutenção corretiva

Intervenções passam a ser planejadas.

 Redução do consumo de graxa

A aplicação deixa de ser baseada em suposição.

Maior previsibilidade

Tendências permitem planejamento estruturado.

 Menor risco operacional

Falhas críticas são evitadas.

Mudança cultural

Implementar ultrassom na lubrificação exige mais do que adquirir equipamento.

É necessário:

  • Treinar equipe;

  • Definir procedimentos;

  • Criar baseline;

  • Integrar dados ao sistema de manutenção;

  • Estabelecer critérios de alarme.

Quando bem aplicado, o ultrassom muda a cultura da lubrificação:

De tarefa mecânica
Para decisão baseada em dados.

Limitações e cuidados

Como qualquer tecnologia, o ultrassom exige critérios técnicos:

  • Padronização do ponto de medição;

  • Controle de interferências externas;

  • Comparação por tendência (não apenas valor absoluto);

  • Interpretação técnica adequada.

Sem método, o equipamento vira apenas um indicador adicional.

Com método, torna-se ferramenta estratégica.

A ponte para o próximo nível

Se o ultrassom permite detectar falhas iniciais e otimizar a relubrificação, surge uma nova questão:

É possível reduzir falhas e consumo de graxa simultaneamente?

Fauzi Mendonça

Engenheiro em Eletrônica

Especializações

Manutenção e Confiabilidade

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Fundador, Diretor Editorial e Colunista da Revista Manutenção, escreve regularmente sobre diversos assuntos relacionados ao cotidiano da Engenharia, Confiabilidade, Gestão de Ativos e Manutenção.

Desenvolvedor Web e Webdesigner, é responsável pelo design, layout, diagramação, identidade visual e logomarca da Revista Manutenção.

Profissional graduado em Engenharia Eletrônica com ênfase em automação e controle industrial, pós graduado em Engenharia de Manutenção, pela Faculdade Anhanguera de Tecnologia (FAT) de São Bernardo e em Engenharia de Confiabilidade, pela Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR).

Profissional atua há mais de vinte (20) anos com Planejamento e Controle de Manutenção (PCM), em empresas de médio e grande porte, nacionais e multinacionais, onde edificou carreira profissional como Técnico, Programador, Planejador, Analista e Coordenador de PCM.


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